Reis & Mott

Reis & Mott

Sexta, 23 Outubro 2015 18:12

Seja bem-vindo a Escuta.org!

Escuta.org reúne projetos de arte sonora e performance de Simone Reis e Iain Mott, junto com outros artistas e técnicos colaboradores, incluindo Marc Raszewski, Jim Sosnin, Nelson Maravalhas, estudantes do Departamento de Arte Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), entre outros.

Para ver os projetos individuais, consulte projetos no menu acima. Os projetos são divididos em cinco grupos: 1) instalação sonora e cênica de Mott, Reis e outros 2) performance de Simone Reis 3) arte sonora e composição musical de Iain Mott  4) pesquisa de Iain Mott 5) projetos pedagógicos de Reis e Mott na Universidade de Brasília.

Esperamos que goste de Escuta.org!

Rebeca Guimarães – 14 anos
Instituto de Educação Fênix - INSEF, Ceilandia

Em relação ao cenário, como eu já li o livro de Machado de Assis, o quarto onde se passou o espetáculo é o mesmo de quando li o livro e imaginei o quarto de Jacobina. Uma outra observação foram os quadros: um casal, dois quadros relacionados a Jesus, uma mulher que aparenta ser a tia de Jacobina, e tem uma pintura quase na entrada para demonstrar Jacobina. Havia uma cama com uma boneca, e ao lado o espelho em uma penteadeira. O cenário é muito importante para a nossa imaginação, pois quando entramos podemos pensar em como achamos que deve ser. Em relação aos sons, foi incrível, porque é como se estivéssemos no lugar de Jacobina, que quando estava só, acabou ficando louco, ouvindo vozes de vários lugares. Achei muito interessante o fato de ter várias caixas de sons para ficar mais real essas ideias. As músicas deixaram o ambiente mais dramático e ajudou muito. O interessante é que as vezes a voz da atriz se encaixava com a música ou ao som do mundo, ou seja: pássaros, a boneca dormindo, gotas, entre diversas coisas . Em relação as luzes, ficou bastante legal as luzes coloridas, as vezes destacando os quadros, as vezes apagando e acendendo, ou mesmo tudo escuro, é mais uma maneira de imaginar. Em relação ao próprio espelho, é uma sensação muito estranha e diferente, ao sentarmos, muitas vezes parecia que a atriz era nosso reflexo, e que a sua voz era a nossa própria voz, percebi isso através da maneira que ouvimos. A ideia que se quis passar na minha opinião é que o nosso exterior é diferente do nosso interior, que existem duas almas, como está no papel: "... uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro"!... é isso!

Juliana Maria – 13 anos
Instituto de Educação Fênix - INSEF, Ceilandia

Bom, o espetáculo foi bem interessante e diferente. Foi além do que eu imaginava. O espaço, a decoração, som, as expressões faciais da atriz e luz, cada detalhe bem colocado, fez com que o espetáculo tivesse uma impressão do que aconteceu no vídeo, estava realmente acontecendo no quarto, pois as vozes e barulhos de fundo fez parecer que tinha alguma pessoa de trás de nós. Mesmo que tenha me dado medo, foi um ótimo espetáculo.

Domingo, 13 Setembro 2015 17:53

O Espelho, inspirada em Machado de Assis

Gladstone Machado de Menezes, setembro de 2012

O espectador senta-se diante do espelho. Como Jacobina, o narrador do conto de Machado de Assis ele vê, nítido, o quarto refletido no vidro. Ouve: bolhas. Cigarras. Pios de pássaros. Música das estrelas.

Mais nada. A não ser o espaço vazio onde ele deveria se refletir.

As palavras especulação e consideração têm origem comum. Verdade ou mentira?

De acordo com o velho Dicionário dos Símbolos, especular era observar o céu e os movimentos das estrelas com o auxílio de um espelho (speculum). Sidus (estrela, astro) deu considerar, que significa olhar o conjunto das estrelas.

Então: diante do espelho o espectador especula. Para depois considerar. Será ele a silhueta difusa, aquele que não se vê no vidro? Ou será ele também a sequência de personagens-Eu que ocupam o lugar do reflexo, do outro lado do espelho?

Em O Espelho fica evidente a maturidade da atriz e performer Simone Reis. Como nos trabalhos anteriores, ela transita sem percalços entre o cult e o trash, o clássico e o popular, o sublime e o grotesco, o apolíneo e o dionisíaco, o Butoh e o teatro rebolado, o racional e a loucura, a superfície e a profundeza, a fotografia, a pintura e o vídeo, a Academia e o centro espírita.

Termos contrastantes sempre caracterizaram o trabalho de Simone Reis. Porém, ao compartilhar a direção com Iain Mott neste trabalho, combinam-se o arrebatamento e a fleuma, com resultado surpreendente. As contradições aparentes são suavizadas, recobertas por uma camada delicada de poesia, quase luz, quase aura.

Simone Reis atua desde o fim da década de 1980. Com Zé Celso e Zé do Caixão. De Melbourne, na Austrália, a Uberaba, em Minas Gerais, sem contar o Japão. Interpretou (em momentos diferentes) a doce Ofélia e o atormentado Hamlet. Encenou de Clarice Lispector a Edith Piaf, passando por Maria Bethânia e Raul Seixas. Participou da Companhia de Danças Atípicas, com os artistas Felícia Johansson, Eliana Carneiro e José Eduardo Garcia de Moraes. Et cetera.

O australiano Iain Mott, estuda música computadorizada, novas mídias de arte e desenho fonográfico. Além de criar instalações interativas de mídia computadorizada. Seus trabalhos foram apresentados nos quatro cantos do mundo: em Melbourne, na Austrália; na China; na Áustria; em Barcelona; em São Paulo; em Eindhoven, na Holanda; e agora, em Brasília.

O conto "O Espelho", de Machado de Assis, é o ponto de partida para a instalação concebida por Simone Reis e Iain Mott. Trata-se de uma estória dentro da estória. Cinco senhores cinquentões jogam conversa fora. Ou, melhor, especulam sobre a consistência da alma. Segundo Jacobina, cada ser humano possui não uma, mas duas almas: uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro.

Vale a pena recontar:

Aos 25 anos Jacobina fez-se alferes da Guarda Nacional. O respeito, o reconhecimento, a distinção e a bajulação com os quais a assunção do posto o distinguiu diante das pessoas fizeram com que ele passasse a se ver e reconhecer apenas como tal. O título de senhor alferes subiu-lhe tão completamente à cabeça que a alma exterior (a que olha de fora para dentro) ocupou o lugar da alma interior (a que olha de dentro para fora). A ponto de lhe borrar o ser-reflexo no vidro do espelho.

Diante do espelho o espectador vê o contorno. A ser preenchido pelos Eus dele e por uma infinidade de Outros, os personagens-Eu que surgem, sem que ele os possa controlar. Eles misturam-se. O espectador defronta-se com a impossibilidade de distinguir. E se embaça ao considerar sobre o espelho.

Pode-se chamar a instalação de espetáculo? Espetáculo também é da família de espelho.

(Espetáculo no sentido de Farsa, Teatro, Encenação. Ver e ver-se - e quem sabe, refletir-se por meio de símbolos, códigos, imagens, sons, palavras, disfarces articulados, no ator, performer, encenador - o Outro).

O Espelho é um espetáculo de cepa circense. Pois apesar da tecnologia sofisticada (audio spotlights, subwoofers, softwares, projeções stereo e mono de sons e imagens), Iain Mott faz surgir os personagens-Eu criados por Simone Reis por meio do jogo de vidros/espelhos chamado pepper-ghost, utilizado no teatro inglês do século XIX e nas apresentações da mulher-gorila dos circos e dos parques de diversão.

Também burlesco. No sentido de provocarem riso, suspense e tensão ao se apresentarem como projeções incômodas e às vezes grotescas do espectador que permanece sozinho, refletido na sequência de personagens-Eu intocáveis do outro lado do espelho.

(O burlesco e circense foram captados e reproduzidos com maestria na cenografia de Nelson Maravalhas).

Por falar em mulher-gorila...

Monga é uma imagem arquetípica. Representa o Eu-primitivo, animalesco de cada um de nós, espectadores. Monga habita não o ambiente das instituições culturais, teatros, museus, galerias de arte contemporânea - mas o grotesco, sórdido, decadente espaço dos circos de beira-de-estrada, dos trailers-feiras de aberrações, dos parques de diversão que percorrem os subúrbios e as cidades do interior.

Seriam os personagens-Eu de Simone Reis desdobramentos polidos, adestrados, educados, adequados, sobrepostos e humanizados da Monga que habita o espectador? O vidro-jaula que separa o espectador do monstro há de conter a fúria de Monga, caso falhe algum comando na casa das máquinas que funciona nos fundos da instalação?

Ao adentrar a instalação, o espectador não deve cometer o mesmo erro da estouvada Alice em Through the Looking Glass. A garota tentava não somente compreender a i-lógica, mas impor as suas próprias razões ao aparente disparate que prevalece do outro lado do espelho.

Da mesma forma que rainhas, sufis, santas, divindades afro-brasileiras, cangurus salteadores, suicidas - e tantos outros personagens-Eu podem não ser apenas aquilo que aparentam, a lógica de O Espelho pode estar disposta em camadas e mais camadas de i-lógica.

Só falta a madrasta Branca de Neve. Todos os dias a rainha vaidosa indagava ao Espelho (que jamais mentia): "existe alguém mais bonita do que eu?"

Na instalação, como não podia deixar de ser, ocorre o inverso: os personagens-Eu questionam a vaidade, os valores, os medos, os rompantes, a sanidade mental do espectador. E insistem nas perguntas: "você acha que eu sou louca?" "Você me acha bonita?"

(O espectador é múltiplo. Diante do espelho ele passa a ser múltiplo, o Outro. O espectador será qualquer coisa que deseje enquanto permaneça na instalação-caixa-quarto-aquário).

A instalação O Espelho é puro teatrinho. Brincadeira de criança, jogo que Simone Reis e Iain Mott convidam o espectador a participar. O espectador não é mais um dos cinquentões do conto de Machado, considerando sobre a configuração da alma. É criança a transformar a realidade palpável: usa a coroa de cartolina e papel laminado da rainha, da santa; fuma o charuto-de-alface do magnata; veste o cobertor velho virado em manto sagrado; percute as castanholas-chocalho de bebê; disfarça-se os óculos com nariz e bigode postiço; aplica no rosto a lanterninha made in taiwan e pétalas de rosa de plástico à guisa de produtos de beleza; atira com revólveres de espoleta e provoca suicídios, assassinatos, golpes de estado, revoluções.

A título de conclusão, o espectador pode recorrer ao sufismo e ao Tao: o espelho é o atributo da rainha. O homem se utiliza do homem como espelho.

PS: Enquanto Oxum ressona, Zé Celso (o bruxo-ator-diretor do Uzyna Uzona) elogia Simone Reis colocando-a no patamar das cômicas-zen Regina Casé e Dercy Gonçalves: O espectador-eu ampliaria a lista. Com os nomes das eternas juradas da tevê brasileira, referenciais estéticos e antifilosóficos com quem Simone Reis certamente aprendeu, diante de outra tela/espelho: Elke Maravilha; Aracy de Almeida; Wilza Karla; Márcia de Windsor; Maria Alcina. Cada uma segurando um lírio branco (ou uma rosa vermelha ou amarela, de plástico) distribuída pelo rabugento Pedro de Lara.

Gladstone Machado de Menezes nasceu em Brasília, em 1962. É escritor e artista visual. Publicou o livro Estado de Coma, de poesia e desenhos, em 1979. Em 2005, o romance Rapunzel. Em 2010, os contos Histórias Desagradáveis. Em 2012, o livro Kwe, Luzes do Arco-íris, uma pesquisa sobre candomblé. Cursou licenciatura em Artes Cênicas e especialização em Artes e Novas Tecnologias, na Universidade de Brasília. Realizou exposições coletivas e individuais e participou de salões de arte no Brasil, a partir 1993. Criou cenários para espetáculos de dança em Portugal.

Domingo, 13 Setembro 2015 17:49

Críticas nos Jornais

Segue o PDF abaixo.

Domingo, 13 Setembro 2015 17:46

O Espelho (conto original)

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

 

Esboço de uma nova teoria da alma humana

 

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

 

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

 

- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

 

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.

 

- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

 

- Duas?

 

- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

 

- Não?

 

- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...

 

- Perdão; essa senhora quem é?

 

- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...

 

Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

 

- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

 

- Espelho grande?

 

- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

 

- Não.

 

- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

 

- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

 

- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

 

- Matá-lo?

 

- Antes assim fosse.

 

- Coisa pior?

 

- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

 

- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

 

- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

 

- Mas não comia?

 

- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...

 

- Na verdade, era de enlouquecer.

 

- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...

 

- Diga.

 

- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

 

- Mas, diga, diga.

 

- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

Rebeca Guimarães – 14 anos
Instituto de Educação Fênix - INSEF, Ceilandia

Em relação ao cenário, como eu já li o livro de Machado de Assis, o quarto onde se passou o espetáculo é o mesmo de quando li o livro e imaginei o quarto de Jacobina. Uma outra observação foram os quadros: um casal, dois quadros relacionados a Jesus, uma mulher que aparenta ser a tia de Jacobina, e tem uma pintura quase na entrada para demonstrar Jacobina. Havia uma cama com uma boneca, e ao lado o espelho em uma penteadeira. O cenário é muito importante para a nossa imaginação, pois quando entramos podemos pensar em como achamos que deve ser. Em relação aos sons, foi incrível, porque é como se estivéssemos no lugar de Jacobina, que quando estava só, acabou ficando louco, ouvindo vozes de vários lugares. Achei muito interessante o fato de ter várias caixas de sons para ficar mais real essas ideias. As músicas deixaram o ambiente mais dramático e ajudou muito. O interessante é que as vezes a voz da atriz se encaixava com a música ou ao som do mundo, ou seja: pássaros, a boneca dormindo, gotas, entre diversas coisas . Em relação as luzes, ficou bastante legal as luzes coloridas, as vezes destacando os quadros, as vezes apagando e acendendo, ou mesmo tudo escuro, é mais uma maneira de imaginar. Em relação ao próprio espelho, é uma sensação muito estranha e diferente, ao sentarmos, muitas vezes parecia que a atriz era nosso reflexo, e que a sua voz era a nossa própria voz, percebi isso através da maneira que ouvimos. A ideia que se quis passar na minha opinião é que o nosso exterior é diferente do nosso interior, que existem duas almas, como está no papel: "... uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro"!... é isso!

Juliana Maria – 13 anos
Instituto de Educação Fênix - INSEF, Ceilandia

Bom, o espetáculo foi bem interessante e diferente. Foi além do que eu imaginava. O espaço, a decoração, som, as expressões faciais da atriz e luz, cada detalhe bem colocado, fez com que o espetáculo tivesse uma impressão do que aconteceu no vídeo, estava realmente acontecendo no quarto, pois as vozes e barulhos de fundo fez parecer que tinha alguma pessoa de trás de nós. Mesmo que tenha me dado medo, foi um ótimo espetáculo.

Domingo, 13 Setembro 2015 17:09

O Espelho, inspirada em Machado de Assis

Gladstone Machado de Menezes*, setembro de 2012

O espectador senta-se diante do espelho. Como Jacobina, o narrador do conto de Machado de Assis ele vê, nítido, o quarto refletido no vidro. Ouve: bolhas. Cigarras. Pios de pássaros. Música das estrelas.

Mais nada. A não ser o espaço vazio onde ele deveria se refletir.

As palavras especulação e consideração têm origem comum. Verdade ou mentira?

De acordo com o velho Dicionário dos Símbolos, especular era observar o céu e os movimentos das estrelas com o auxílio de um espelho (speculum). Sidus (estrela, astro) deu considerar, que significa olhar o conjunto das estrelas.

Então: diante do espelho o espectador especula. Para depois considerar. Será ele a silhueta difusa, aquele que não se vê no vidro? Ou será ele também a sequência de personagens-Eu que ocupam o lugar do reflexo, do outro lado do espelho?

Em O Espelho fica evidente a maturidade da atriz e performer Simone Reis. Como nos trabalhos anteriores, ela transita sem percalços entre o cult e o trash, o clássico e o popular, o sublime e o grotesco, o apolíneo e o dionisíaco, o Butoh e o teatro rebolado, o racional e a loucura, a superfície e a profundeza, a fotografia, a pintura e o vídeo, a Academia e o centro espírita.

Termos contrastantes sempre caracterizaram o trabalho de Simone Reis. Porém, ao compartilhar a direção com Iain Mott neste trabalho, combinam-se o arrebatamento e a fleuma, com resultado surpreendente. As contradições aparentes são suavizadas, recobertas por uma camada delicada de poesia, quase luz, quase aura.

Simone Reis atua desde o fim da década de 1980. Com Zé Celso e Zé do Caixão. De Melbourne, na Austrália, a Uberaba, em Minas Gerais, sem contar o Japão. Interpretou (em momentos diferentes) a doce Ofélia e o atormentado Hamlet. Encenou de Clarice Lispector a Edith Piaf, passando por Maria Bethânia e Raul Seixas. Participou da Companhia de Danças Atípicas, com os artistas Felícia Johansson, Eliana Carneiro e José Eduardo Garcia de Moraes. Et cetera.

O australiano Iain Mott, estuda música computadorizada, novas mídias de arte e desenho fonográfico. Além de criar instalações interativas de mídia computadorizada. Seus trabalhos foram apresentados nos quatro cantos do mundo: em Melbourne, na Austrália; na China; na Áustria; em Barcelona; em São Paulo; em Eindhoven, na Holanda; e agora, em Brasília.

O conto "O Espelho", de Machado de Assis, é o ponto de partida para a instalação concebida por Simone Reis e Iain Mott. Trata-se de uma estória dentro da estória. Cinco senhores cinquentões jogam conversa fora. Ou, melhor, especulam sobre a consistência da alma. Segundo Jacobina, cada ser humano possui não uma, mas duas almas: uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro.

Vale a pena recontar:

Aos 25 anos Jacobina fez-se alferes da Guarda Nacional. O respeito, o reconhecimento, a distinção e a bajulação com os quais a assunção do posto o distinguiu diante das pessoas fizeram com que ele passasse a se ver e reconhecer apenas como tal. O título de senhor alferes subiu-lhe tão completamente à cabeça que a alma exterior (a que olha de fora para dentro) ocupou o lugar da alma interior (a que olha de dentro para fora). A ponto de lhe borrar o ser-reflexo no vidro do espelho.

Diante do espelho o espectador vê o contorno. A ser preenchido pelos Eus dele e por uma infinidade de Outros, os personagens-Eu que surgem, sem que ele os possa controlar. Eles misturam-se. O espectador defronta-se com a impossibilidade de distinguir. E se embaça ao considerar sobre o espelho.

Pode-se chamar a instalação de espetáculo? Espetáculo também é da família de espelho.

(Espetáculo no sentido de Farsa, Teatro, Encenação. Ver e ver-se - e quem sabe, refletir-se por meio de símbolos, códigos, imagens, sons, palavras, disfarces articulados, no ator, performer, encenador - o Outro).

O Espelho é um espetáculo de cepa circense. Pois apesar da tecnologia sofisticada (audio spotlights, subwoofers, softwares, projeções stereo e mono de sons e imagens), Iain Mott faz surgir os personagens-Eu criados por Simone Reis por meio do jogo de vidros/espelhos chamado pepper-ghost, utilizado no teatro inglês do século XIX e nas apresentações da mulher-gorila dos circos e dos parques de diversão.

Também burlesco. No sentido de provocarem riso, suspense e tensão ao se apresentarem como projeções incômodas e às vezes grotescas do espectador que permanece sozinho, refletido na sequência de personagens-Eu intocáveis do outro lado do espelho.

(O burlesco e circense foram captados e reproduzidos com maestria na cenografia de Nelson Maravalhas).

Por falar em mulher-gorila...

Monga é uma imagem arquetípica. Representa o Eu-primitivo, animalesco de cada um de nós, espectadores. Monga habita não o ambiente das instituições culturais, teatros, museus, galerias de arte contemporânea - mas o grotesco, sórdido, decadente espaço dos circos de beira-de-estrada, dos trailers-feiras de aberrações, dos parques de diversão que percorrem os subúrbios e as cidades do interior.

Seriam os personagens-Eu de Simone Reis desdobramentos polidos, adestrados, educados, adequados, sobrepostos e humanizados da Monga que habita o espectador? O vidro-jaula que separa o espectador do monstro há de conter a fúria de Monga, caso falhe algum comando na casa das máquinas que funciona nos fundos da instalação?

Ao adentrar a instalação, o espectador não deve cometer o mesmo erro da estouvada Alice em Through the Looking Glass. A garota tentava não somente compreender a i-lógica, mas impor as suas próprias razões ao aparente disparate que prevalece do outro lado do espelho.

Da mesma forma que rainhas, sufis, santas, divindades afro-brasileiras, cangurus salteadores, suicidas - e tantos outros personagens-Eu podem não ser apenas aquilo que aparentam, a lógica de O Espelho pode estar disposta em camadas e mais camadas de i-lógica.

Só falta a madrasta Branca de Neve. Todos os dias a rainha vaidosa indagava ao Espelho (que jamais mentia): "existe alguém mais bonita do que eu?"

Na instalação, como não podia deixar de ser, ocorre o inverso: os personagens-Eu questionam a vaidade, os valores, os medos, os rompantes, a sanidade mental do espectador. E insistem nas perguntas: "você acha que eu sou louca?" "Você me acha bonita?"

(O espectador é múltiplo. Diante do espelho ele passa a ser múltiplo, o Outro. O espectador será qualquer coisa que deseje enquanto permaneça na instalação-caixa-quarto-aquário).

A instalação O Espelho é puro teatrinho. Brincadeira de criança, jogo que Simone Reis e Iain Mott convidam o espectador a participar. O espectador não é mais um dos cinquentões do conto de Machado, considerando sobre a configuração da alma. É criança a transformar a realidade palpável: usa a coroa de cartolina e papel laminado da rainha, da santa; fuma o charuto-de-alface do magnata; veste o cobertor velho virado em manto sagrado; percute as castanholas-chocalho de bebê; disfarça-se os óculos com nariz e bigode postiço; aplica no rosto a lanterninha made in taiwan e pétalas de rosa de plástico à guisa de produtos de beleza; atira com revólveres de espoleta e provoca suicídios, assassinatos, golpes de estado, revoluções.

A título de conclusão, o espectador pode recorrer ao sufismo e ao Tao: o espelho é o atributo da rainha. O homem se utiliza do homem como espelho.

PS: Enquanto Oxum ressona, Zé Celso (o bruxo-ator-diretor do Uzyna Uzona) elogia Simone Reis colocando-a no patamar das cômicas-zen Regina Casé e Dercy Gonçalves: O espectador-eu ampliaria a lista. Com os nomes das eternas juradas da tevê brasileira, referenciais estéticos e antifilosóficos com quem Simone Reis certamente aprendeu, diante de outra tela/espelho: Elke Maravilha; Aracy de Almeida; Wilza Karla; Márcia de Windsor; Maria Alcina. Cada uma segurando um lírio branco (ou uma rosa vermelha ou amarela, de plástico) distribuída pelo rabugento Pedro de Lara.

* Gladstone Machado de Menezes nasceu em Brasília, em 1962. É escritor e artista visual. Publicou o livro Estado de Coma, de poesia e desenhos, em 1979. Em 2005, o romance Rapunzel. Em 2010, os contos Histórias Desagradáveis. Em 2012, o livro Kwe, Luzes do Arco-íris, uma pesquisa sobre candomblé. Cursou licenciatura em Artes Cênicas e especialização em Artes e Novas Tecnologias, na Universidade de Brasília. Realizou exposições coletivas e individuais e participou de salões de arte no Brasil, a partir 1993. Criou cenários para espetáculos de dança em Portugal.

Domingo, 13 Setembro 2015 17:04

Newspaper Articles about O Espelho

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Domingo, 13 Setembro 2015 15:29

The Mirror

By Joaquim Maria Machado de Assis.

Translation by Wilson Loria. Originally published in www.brazzil.com. Reprinted with permission.

Draft of a new theory of the Human Soul

One night, four or five gentlemen debated over various issues of high transcendency; however, the disparity of opinions did not bring about the least alteration of their spirits. The house stood on the hill of Santa Tereza; the room was small, lit by candles whose light mysteriously blended with the moonlight that came in from outside. Between the city -- with its agitation and adventures -- and the sky -- where the stars winked in a limpid and calm atmosphere - were our four or five investigators of metaphysical things, in friendly fashion, resolving the most arduous problems of the Universe.

Why four or five? To be exact four spoke, but besides these four, there was a fifth character in the room who was quiet, thoughtful, dozing off, and whose contribution to the debate was nothing but grunts of approval now and then. This man was old as the others, between forty and fifty, provincial, a capitalist, intelligent, not lacking education, and apparently astute and caustic. He never argued with anyone and he defended his absence from the conversation with a paradox, saying that a discussion was the polite form of the fighting instinct that lies deep in Man, like an inheritance from bestial times, adding that angels and cherubs never disagreed with anything, and in fact were spiritual and eternal perfection.

As he gave this same answer that night, one of the men present contested it and challenged him to demonstrate what he was saying if he could. Jacobina -- that was his name -- reflected for a moment and answered, "Come to think of it, perhaps you, my good man, are right."

Suddenly, in the middle of the night, it happened that the fellow started to speak, not for one or three, but for thirty or forty minutes. The conversation, in its meanderings, eventually came to the nature of the soul, an issue that radically set the four friends apart. To each his own; not only agreement among them, but the discussion itself became difficult if not impossible because of the multiplicity of the questions springing from the main topic, and a bit, perhaps,because of the inconsistency of opinions. One of the debaters asked Jacobina for an opinion -- a conjecture, at least.

"Neither a conjecture nor an opinion," he answered back. "Either may provoke dissension, and as you know, I do not argue. But if you want to listen to me in silence, I can tell you something that happened to me once, which is the clearest demonstration of what you are talking about... First, there is not only one soul, but two...

"Two?"

"No fewer than two. Each human creature carries with him two souls: one that looks from inside outside and another that looks from outside inside... Be as amazed as you wish, let your mouths hang open, shrug your shoulders, anything, but I do not admit rebuttal. If you question me, I shall finish my cigar and go to bed. The external soul can be a spirit, a fluid, a man, many men, an object, an operation. There are cases, for example, in which an ordinary shirt button is the external soul of a person; -- the same, as a polka, a card game, a book, a machine, a pair of boots, a melody, a drum, etc. It is clear that the task of this second soul is to transmit life, like the first soul; both fulfill Man, who is, metaphysically speaking, an orange. He who loses one of the halves, naturally loses the half of his existence; and there are cases -- not so rare -- in which the loss of the external soul implies the loss of the entire existence. Shylock, for example. The soul of that Jew was his ducats; losing them was equivalent to death. 'I will never see my gold again,' he said to Tubal. 'It's a dagger thrust into my heart.' Pay attention to that line; the loss of the ducats, the external soul, was death to him. Now, it is necessary to know that the external soul is not always the same..."

"No?"

"No, sir. It changes in nature and state. I am not talking about certain absorbing souls like the mother country which Camões said he would die with, or the power that was the external soul of Caesar and Cromwell. These are energetic and unique souls; there are others, likewise full of energy, but of a mutable nature. There are gentlemen, for example, whose external soul in their first year of life was their rattle or wooden horse, and later, we may suppose, was their Masonry group. I myself know a lady -- in reality extremely kind -- who changes her external soul five, six times a year. During the opera season, it is the opera; when the season is over, her external soul is replaced by another: a concert, a ball at the Casino, Ouvidor Street, Petrópolis..."

"Pardon me, but who is this lady?"

"This lady is a relative of the devil's and has the same name. Her name is Legion... and like this, there are other cases. I myself have experienced these changes. I shall not relate them because it would take me too long. I shall restrict myself to the episode mentioned to you. An episode during my twenty-fifth year..."

The four gentlemen, anxious to hear the promised case, forgot about the controversy. Blessed curiosity! You are not only the soul of civilization, but also the fruit of harmony, heavenly fruit, of another taste but no different from the fruit of mythology. The room, moments before noisy with physics and metaphysics, is now a dead sea: all eyes are, on Jacobina, who reshapes the tip of his cigar recollecting his memories. Here is how started his story...

"I was 25 years old, I was poor, and had just been promoted to the rank of second lieutenant in the National Guard. You can't imagine what a stir this caused in my family. My mother was so proud! So happy! She called me her lieutenant. Cousins, uncles and aunts -- it was all sincere and pure happiness. In the village, note, there were a few resentful people; weeping and gnashing their teeth as in the Scriptures; and the reason was only that there were many candidates for the post and these had lost. I also suppose that part of their disappointment was entirely gratuitous: born of the mere distinction. I recall some young men, acquaintances of mine, who looked askance at me for a time. On the other hand, many people were happy about my promotion, and the proof of this is that my entire military uniform was given to me by my friends... It happened then that one of my aunts, Dona Marcolina, the widow of Captain Peçanha, who lived many leagues from the village in a secluded and solitary little country place, wanted to see me and asked me to come over and bring my uniform. So I went, accompanied by a slave, who returned to the village a few days later because Aunt Marcolina, as soon as she got me settled in the house, wrote to my mother saying that she wouldn't let me leave for at least a month. And how she hugged me! She also called me her lieutenant. She found me handsome. And as she was a bit of a jester herself, she confessed to me that she was jealous of the young lady who one day would be my wife. She swore that in the whole province there wasn't another man who could hold a candle to me. And she would always call me lieutenant: lieutenant here, lieutenant there, lieutenant all the time. I asked her to call me Joãozinho, as before; but she shook her head saying no, that I was 'Mister Lieutenant.' One of her brothers-in-law who lived there, a brother of the late Peçanha, called me nothing else. It was 'Mister Lieutenant,' not for mockery, but seriously and in front of the slaves who naturally did the same. At the

table, I had the best seat and was the first to be served. You can't imagine. If I told you that Aunt Marcolina's enthusiasm reached the point that she had them install in my bedroom a big mirror, a rich and magnificent piece that clashed with the rest of the house, whose furnishings were modest and simple... It was a mirror given to Aunt Marcolina by her godmother, who had inherited it from her mother, who had bought it from the noblewomen who came to Brazil with Dom João VI's Court in 1808. I didn't know if there was any truth in it; it was tradition. The mirror was naturally very old, but you could still see some gold, somewhat worn by time, some sculpted dolphins in the upper corners of the frame, some mother-of-pearl ornamentation and other caprices of the artist. Really old, but good..."

" A big mirror?"

"Big. And, as I told you, it was an enormous gesture on her part, since the mirror was in the living-room. It was the best piece of furniture in the house. But there was no one who could talk her out of it; she said it didn't matter at all, that it was just for a few weeks, and finally that 'Mister Lieutenant' deserved much more.

The thing of it was that all these gestures of affection, attention and favors worked a transformation inside me, which was helped and completed by the natural sentiment of youth. You can imagine, I suppose?"

"No..."

"The lieutenant eliminated the man. For a few days, both natures were in balance; but it wasn't long before the primitive one surrendered to the other. A very small part of humanity remained inside me. So it happened that the external soul, which was previously the sun, the air, the fields, the eyes of the young ladies, changed its nature and became the courtesy and the flatteries of the household, everything that related to the position, nothing of what related to the man. The only part of the citizen that stayed with me was the one that had to do with the exercise of the rank; the other faded away into thin air and the past. It's hard for you to believe, isn't it?"

"It is even hard for me to understand," answered one of the listeners.

"You shall. The facts will better explain the sentiments: facts are everything. The best definition of love cannot be compared to a kiss from your beloved, and if I remember rightly, an ancient philosopher demonstrated the movement walking. Let us look at the facts. We will see how, while the consciousness of the man obliterated itself, that of the lieutenant became alive and intense. Human sorrows, human joys, when only that, barely gained from me indifferent compassion or a patronizing smile. By the end of the third week, I was someone else, entirely someone else. I was exclusively a lieutenant. Well, one day Aunt Marcolina received some bad news: one of her daughters, married to a farmer who lived five leagues away, had fallen ill and was dying. Good-bye, nephews! Good-bye, lieutenant! Being an extremely loving mother, she immediately planned the trip, asked her brother-in-law to go with her and asked me to take care of the house. I believe that if it weren't for her distress, she would have done the opposite; she would have left the brother-in-law and would have gone with me. But what happened was that I stayed there alone except for the few slaves of the house. I confess to you that I soon felt a great oppression, something like the effect of four walls of a prison cell, suddenly raised around me...

It was the external soul reducing itself, limited now to a few uncultured spirits. The lieutenant continued to dominate in me, although, life was less intense and my consciousness more feeble. There was a note of humility in the way the slaves treated me, which somehow compensated for the affection of my relatives and the domestic, interrupted intimacy.

That very night I noticed that the slaves doubled their respect, their joy and their protests. It was 'Master Lieutenant' every other minute; Master Lieutenant is very handsome, Master Lieutenant shall become a colonel; Master Lieutenant shall marry a beautiful girl, a general's daughter; a concert of compliments and prophecies that left me ecstatic. Ah, perfidious ones! Little did I suspect the secret intention of those vile creatures."

"Of killing you?"

"Would that it were."

"Something worse?"

"Listen to me. On the following morning, I found myself alone. The traitors, seduced by others or by their own act, had decided to escape during the night and that's what they did. I found myself alone, not another person within the four walls, the property deserted, the fields abandoned.

Not a single human breath! I went through the house, the the slave quarters, everywhere. No one, not even a child. Only a few roosters and hens, a pair of mules philosophizing about life as they shook off the flies, and three steers. Even the dogs had been taken by the slaves. Not a single soul. Does that seem better to you than to have died? It was worse. Not because of fear; I swear to you I was not afraid. I was a bit cocky, so I felt nothing during the first couple of hours. I was sad because of the loss caused to Aunt Marcolina; I was so perplexed, not knowing whether I should go to her and give her the sad news or remain there to take care of the house. I chose the second alternative so as not to leave the house alone and because, if cousin was really ill, I would just add to the mother's pain without any remedy. Finally, I was going to wait for Uncle Peçanha's brother to come back that day or on the following day, since he had already been gone for thirty-six hours. But the morning passed with no sign of him. In the afternoon, I began to experience the feeling of a person who has lost all his nerves and was not conscious of his muscles. Uncle Peçanha's brother did not come back that day or the following day or even that whole week. My solitude took on enormous proportions. Never had the days been so long, never had the sun burned the earth with a more tiresome obsession. In the living-room, the hours struck from century to century on the old clock, whose pendulum tick-tock, tick-tock hurt my internal soul like a continuous flicking of eternity. Many years later when reading an American poem, by Longfellow I believe, I came across those famous lines: Never, for ever! -- For ever, never! I confess I got the chills. I recalled those ghastly days. That was exactly the way Aunt Marcolina's clock went: Never, for ever! -- For ever, never! They were not the strokes of a pendulum, it was a dialogue from the abyss, a whisper from nothingness. And the night. Not that it was more silent. The silence was the same as during the day. But the night was the shadow, the even narrower, or wider, solitude. Tick-tock, tick-tock. No one in the rooms, on the veranda, in the corridors, on the grounds, no one anywhere. You laughing?

"Yes, you sound as if you were a bit afraid."

"Oh. It would have been good if I had felt fear. I would have survived. But the distinct aspect of that situation was that I could not even feel afraid, that is, feel fear as it is commonly understood. I felt an inexplicable sensation. I was like a walking corpse, a somnambulist, a mechanical doll. Sleeping, it was different. Sleep provided relief. Not for the usual reason of it being the brother of death, but for another. I think I can explain the phenomenon this way: sleep by eliminating the need for an external soul, allowed the internal soul to act. In my dreams, I would proudly wear the uniform among family and friends, who praised my elegance, who called me lieutenant. A friend of the family would come and promise me the rank of lieutenant; another the rank of captain or major; and all of this made me feel alive. But as I awoke, in bright daylight, the consciousness of my new and only being faded away with sleep -- because the internal soul lost its exclusive action and became dependent on the other, which stubbornly refused to return... It did not return. I would go outside, from one place to another to see if I could discover any sign of its coming back. Soeur Anne, Soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nothing, not a thing; just like in the French tale. Nothing but the dust of the road and the grass out on the hills. I would return home nervous, desperate, and stretch on the settee in the living-room. Tick-tock, tick-tock. I would get up, walk around, tap on the window panes and whistle. On one occasion, I thought of writing something: an article on politics, a novel, an ode. I did not choose anything definite. I sat down and wrote a few words and loose sentences on a piece of paper just to try different forms. But the form, like Aunt Marcolina, did not come. Soeur Anne, Soeur Anne... Not a single thing. At most, what I saw was the blackness of the ink and the whiteness of the paper.

"Didn't you eat?"

I ate a little fruit, bread, preserves, a few roots toasted in the fire, but I would have withstood that happily if it were not for the terrible moral situation I found myself in. I recited verses, speeches, parts of Latin texts, verses by Gonzaga, eight-line verses by Camões, ten-line verses, an anthology of thirty volumes. Sometimes I did exercises, at other times I pinched my legs; but the effect was merely a sensation of physical pain or tiredness and nothing more. Everything was silence, a vast, enormous, infinite silence only underscored by the everlasting tick-tock of the pendulum. Tick-tock, tick-tock...

"In reality, anyone would go mad."

"You are going to hear worse things. I must tell you that since I was left alone, I had not looked in the mirror once. My abstention was not deliberate, I had no reason for that. It was an unconscious impulse, a fear of seeing myself one and two persons at the same time in that deserted house. And if this explanation is a true one, nothing is better proof of human contradiction, because at the end of eight days, it occurred to me to look in the mirror with the exclusive objective of finding myself divided in two. I looked and stepped back. The glass itself seemed to be in conspiracy with the rest of the universe; it did not reflect a clear, whole figure, but one that was vague, foggy, diffuse, the shadow of a shadow. The reality of the laws of Physics do not allow me to deny that the mirror reproduced me textually, with the same contours and features; that is the way it must have been. But that was not the sensation I had. So I became fearful. I attributed the phenomenon to my nervous excitement; I was afraid that if I remained there longer I would go mad. 'I am going to leave,' I told myself. And I raised my arm in a gesture that was both angry and decisive, as I looked into the mirror. The gesture was there, but dispersed, rent, mutilated... I started to get dressed, mumbling to myself, coughing without needing to, shaking out my clothes briskly, fretting for no reason over the buttons just to say something. Once in a while I glanced furtively at the mirror: the reflection was the same diffusion of lines, the same decomposition of contours... I continued dressing myself. All of a sudden, out of an inexplicable inspiration, an uncalculated impulse, I remembered... See if you guess what my idea was, gentlemen...

"Tell us."

I was looking into the glass with the persistence of a desperate person, contemplating the features themselves, broken and unfinished, a cloud of loose, shapeless lines when the thought came to me..."

"Tell us, tell us..."

"I remembered to put on the lieutenant's uniform. I put it on, I got myself all ready. And since I was in front of the mirror, I raised my eyes, and... you won't believe it: the glass then reflected the whole figure; not a line missing, not one different contour; it was really me, the second lieutenant who had finally found his external soul. That soul, absent with the owner of the house, having dispersed and fled with the slaves, was there whole again in the mirror. Imagine a man who, little by little, emerges from a state of lethargy, opens his eyes without seeing, then begins to see, to distinguish people from objects, but does not know how to tell one from the other individually. Finally, he knows that this So-and-So, that is So-and-So: this is a chair; that over there, a sofa. Everything goes back to what it was before the dream. That was what happened to me. I looked in the mirror, walked from one side to the other, stepped back, gesticulated, smiled and the mirror reproduced everything. I was no longer an automaton, I was a living being. From then on, I was someone else. Each day, at a certain hour, I put on the lieutenant's uniform and sat in front of the mirror, reading, looking, meditating. After two or three hours, I took the clothes off again. With this routine, I was able to get through six more days of solitude without feeling them...

When the others in the room came to their senses, the narrator had gone down the stairs...

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